quinta-feira, 4 de abril de 2013

Já apetece uma boa caminhada


É certo que, por estes dias (demasiados dias), a chuva persiste em cair e, com frequência, de forma algo diluviana. Mas, de acordo com o calendário, já é primavera, pelo que o biorritmo humano já clama por passeatas ao ar livre. Foi assim que nos lembrámos de "Wildwood" e de Thoreau.
O livro de Roger Deakin, "Wildwood" é um apreciadíssimo clássico da escrita sobre a natureza. Como o nome indica, trata de madeira, tal como ela existe na natureza, nas nossas almas, na nossa cultura e nas nossas vidas. Desde a nogueira que tem na sua Suffolk natal, o autor embarca numa viagem que o leva através da Grã-Bretanha, passando pela Europa e pela Ásia Central, até à Austrália. O seu objectivo é perceber o que está por detrás da nossa profunda ligação com a madeira e as árvores.
"Wildwood" é um misto de autobiografia (notável a descrição da construção da sua casa em madeira), história, literatura de viagens e história natural.

Este livro é um excelente complemento para "Caminhada" (Antígona, 2012) e "The Maine Woods" (Princeton University Press, 2004), ambos de Henry David Thoreau e ambos excelentes exemplos das sua viagens empreendidas pela natureza - por vezes por trilhos que mais ninguém conhecia - e que eram, sobretudo, belíssimas viagens interiores.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A Etiópia na Palavra de Viajante


A inaugurar a nossa parceria com a Nomad, teremos Carlos Carneiro a falar da Etiópia, no dia 16 Março, às 18h.
 
A Etiópia é África no seu lado mais remoto, aventureiro e historicamente deslumbrante. Vista como berço da humanidade, terra prometida dos Rastafaris, Reino de Preste João ou Império da Abissínia, é pátria de um povo orgulhoso, considerado o mais belo do continente africano e que nunca se deixou colonizar pelos europeus. No norte encontramos o seu lado histórico, montanhoso e verdejante, os Castelos de Gondar e a encantadora Lalibela, com as suas igrejas escavadas diretamente na rocha viva, as montanhas Simien e o lago Tana. A sul conhecemos a outra face do país, a do imaginário africano de tribos paradas eternamente no tempo, aventura e animais selvagens num dos locais mais mágicos do mundo: o remoto Vale do Omo.

Venha conhecer a Etiópia através do relato do líder Nomad Carlos Carneiro, que em Junho acompanhará um grupo de viajantes a este surpreendente país.

Carlos Carneiro
Partiu assim que acabou o curso de jornalismo e nos dez anos que passaram, saltitou entre viagens e trabalhos: foi de bicicleta até Dakar (com o líder Nomad Jorge Vassallo no projeto "Até onde vais com 1000 euros?"), andou de burra por Trás-os-Montes, foi operário numa fábrica de salsichas em Londres, freelancer em Portugal e trabalhou dois anos numa montanha na Islândia. O resto do tempo passou-o com a mochila às costas em longas viagens pela Índia, Sudeste Asiático, Médio Oriente e claro está, América Latina, que atravessou durante um ano.
Em 2012 partiu para a sua aventura mais emocionante: uma viagem à volta de África, com o pai reformado, a bordo de uma Renault 4L. Fizeram 42.000 km e 25 países ao longo de um ano.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fotos de Ryszard Kapuscinski

O jornalista polaco Ryszard Kapuscinski (1932 - 2007) deixou-nos das melhores reportagens alguma vez escritas. Um olhar límpido, interessado, que aprofundava a notícia, aliado a um humanismo franco, mas não lamecha.
Assistiu a inúmeros acontecimentos importantes da História do século XX, nomeadamente o fim dos colonialismos em África (recomenda-se particularmente o livro que escreveu sobre Angola, cuja edição em português está, infelizmente, esgotada; podendo contudo optar-se pelas versões em inglês, francês ou espanhol) e o fim da União Soviética.
São vários e tão bons os livros publicados, que a dificuldade está na escolha. Por hoje, ficam mais duas sugestões: "Ébano", sobre África, e "O Império".
Isto tudo a propósito de que, no Centro Português de Fotografia, no Porto, estará patente, de 23 de Fevereiro a 21 de Abril de 2013, uma exposição de fotografias de Kapuscinski: "Poeta de Reportagem".
Absolutamente a não perder.
http://www.cpf.pt


 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Judeus Errantes, de Joseph Roth

Joseph Roth, escritor e jornalista, foi um grande cronista da queda do Império Austro-Húngaro e da ascensão do nazismo.
Nascido em 1894, Roth assistiu ao êxodo dos judeus da Europa oriental em direcção a Berlim, resultante do fim da Áustria-Hungria e da Revolução Russa. Nestes textos sobre a chegada destas pessoas, tão estranhas à Berlim da República de Weimar, está bem patente a discriminação que sofreram. 
Felizmente, a Sistema Solar editou agora em português o livro que reúne estas crónicas.
Para lhe fazer companhia, na montra, colocámos um outro livro seu traduzido em português - "O Leviatã", uma novela (editada pela Assírio & Alvim) - e dois títulos sobre a mesma temática: Jewish Journeys, sobre a diáspora judaica; e Jewish Heritage Travel. A guide to Eastern Europe.
Leituras complementares que nos ajudam a compreender o mundo e a História.
   

A estónia é um paraíso


No próximo sábado, dia 2, vem cá o João Lopes Marques, autor de "Choque Cultural" e de "Estonia. Paradise without Palm Trees", para nos falar um pouco sobre as suas viagens e, em particular, sobre a Estónia, país onde viveu.
Começa às 17h e promete!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Bagagem perdida



Depois de Poesia Reunida, publicado em novembro de 2011, a Quetzal apresenta "Você está aqui", o oitavo livro de poemas originais de João Luís Barreto Guimarães.

Dividido em duas partes - Partidas e Chegadas, sendo a primeira um conjunto de poemas fruto das impressões de uma série de viagens; e a segunda, o regresso à exploração/observação do quotidiano e dos lugares familiares -, "Você está aqui" é também o balanço poético e pessoal do homem e do poeta, aos 40 anos, a procura e reafirmação do seu lugar, e do da sua poesia, no mundo.

E
quando encontras no bolso do casaco das viagens
pequenos papéis esquecidos pelo gesto de
os reteres? Não o fazes por acaso. Investes
na epifania de veres regressar `mão
uma entrada nos Uffizi (a
magnificência
do Vasa) as cores da
Casa Batlló (...)

«... a verdade é que ele só sabe escrever ‘de dentro da vida’ e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.»
José Mário Silva, Expresso

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

De Ovar a Macau em bicicleta

No próximo dia 24 (5ª feira), às 19h, o Rafael e a Tanya vêm cá contar a sua grande aventura: 19 meses de viagem em bicicleta, de Ovar a Macau.
Estão todos convidados!
Mais informações sobre a viagem em http://www.2numundo.com/

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

De Damião de Góis à Holanda de Ramalho Ortigão

Damião de Góis foi um grande viajante. A sua volta pela Europa, cheia de aventuras, permitiu-lhe conhecer grandes vultos da História: Tomás Morus, Lutero ou o humanista Erasmo de Roterdão, de quem se tornaria amigo. Há quem diga que As Tentações de Santo Antão, de Hyeronimus Bosch, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, terá feito parte da sua colecção de arte.
De burro até Gdansk é um feito, tanto no século XVI como nos dias de hoje!
A sua ligação à Flandres fez-nos ir repescar uma obra infelizmente difícil de encontrar, exceptuando em alfarrabistas: "A Holanda", de Ramalho Ortigão.
Ficam uns excertos.
"Até ao século XVI a Holanda era para nós o pântano tenebroso, a região anfíbia, ora água, ora terra-firme; um pouco de lodo envolto em névoa, periodicamente revolvido pelas tempestades do mar do Norte, habitad por uma raça misteriosa, maldita dos deuses, para a qual os soldados de César olharam atónitos, levando para Roma a notícia desse povo sinistro e lamentável condenado a lutar incessantemente contra a cólera do céu e contra a inclemência do oceano sobre alguns mouchões de terra movediça e flutuante."
"Utreque foi ainda sede de vários concílios, o primeiro dos quais data, creio eu, do ano 819, e um dos mais célebres foi o de 1080, em que o imperador Henrique IV teria excomungado o papa, se na véspera do dia em que devia ser proclamada a sentença os bispos não tivessem fugido, aterrados."
"No meio desta verdadeira orgia de alarves, destaca-se de repente aos meus olhos indignados um rapaz, de cerca de dezasseis anos de idade, gravemente vestido de colegial, com o seu grande colarinho redondo, de menino bem-educado, voltado para cima da gola de pano fino, tendo abraçada uma forte e loira rapariga, que lhe enche de murros o nariz enquanto ele lhe circunda o pescoço de uma enfiada de beijos."
E este, tão actual que chega a doer:
"Faziam-se transacções a prazo. Títulos de venda de tulipas inteiramente imaginárias, compradas por somas tão imaginárias, como as tulipas, negociavam-se como letras de câmbio, a cujo vencimento desapareciam conjuntamente o sacador e o aceitante."

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Portugueses pelo mundo

Janeiro é mês dedicado a viajantes portugueses. É neste âmbito que teremos a exposição de fotografia de Agostinho Mendes (inaugura dia 12, às 17h), o Rafael e a Tanya a contarem a sua viagem pelo mundo em bicicleta (dia 24, às 19h) e o João Lopes Marques (autor de "Choque Cultural") a falar da sua estadia na Estónia (dia 26, às 17h), e que destacamos livros de e/ou sobre portuueses pelo mundo.


Quanto à gastronomia, pedimos que os viajantes nos enviem pratos favoritos. De todas as sugestões que chegarem, escolheremos as melhores e mais adequadas para servir ao almoço. No dia 15, a sugestão é do Agostinho: couscous de frango.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Exposição de fotografia "Vinte Anos de Olhar pelo Mundo"

A Palavra de Viajante vai encerrar para férias até dia 8 de Janeiro.

No regresso, recomeçamos em grande: a 12, às 17h, inaugura a exposição de fotografia de Agostinho Mendes, "Vinte Anos de Olhar pelo Mundo". As 25 fotografias deste fotógrafo e viajante reunidas para a exposição representam um mergulho no imaginário individual e resultam não só da errância de duas décadas pelo mundo, tantas vezes feita de caminhos inesperados e surpreendentes, mas também do muito que Portugal tem ainda por descobrir.


De caminho, fica o desejo de um Bom Ano Novo!  

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Si non è vero, è ben trovato



Já muito se escreveu (e continua a escrever) sobre as viagens do veneziano Marco Polo, em particular sobre a veracidade do que descreveu, dos lugares por onde afirma ter andado e das gentes com que se cruzou.
Totalmente verdadeira ou contendo uma boa dose de imaginação, é inegável que é uma excelente história, para mais atravessando países a que só no século XX os ocidentais começaram a ter mais acesso (nomeadamente a Ásia Central).
Na Palavra de Viajante temos dado algum destaque a estes lugares - a Rota da Seda continua a ser fascinante - e o resultado é uma cadeia quase infinita de livros, uns rementendo para os outros, num contínuo algo encantatório.
Recentemente, uma cliente contou-nos que a última viagem que a sua mãe fizera (hoje ainda viva e, então, com 86 anos!) fora precisamente a Rota da Seda.
700 anos depois, o fascínio permanece. E há livros que em muito contribuem para tal. Ficam aqui dois, uma preciosa edição em inglês (com fabulosas ilustrações, apetece mergulhar a fundo naquele tempo e naquele espaço), e a edição portuguesa da Assírio & Alvim (que nos permite concentrar no texto).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A Rota dos Reis Magos




A Rota do Incenso é uma ds mais antigas do mundo, tendo rivalizado com a Rota da Seda quando a fé no poder místico do incenso estava no seu auge.
A autora, Barbara Toy, membro da Royal Geographic Society graças às suas viagens à Islândia, Jugoslávia, Grécia e Líbano, foi a primeira mulher ocidental a subir ao cume do monte Wahni, na Etiópia. Tal como Freya Stark, foi uma viajante intrépida e aventureira. Morreu em 2001, com 92 anos.
Seguindo as pegadas dos Reis Magos, Barbara Toy parte de Bir Ali (a bíblica Canaã) com destino a Damasco.
Este livro é o relato dessa viagem, com um fascinante retrato da Arábia.  

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não há GPS que possa competir com estes mapas

Nas últimas duas ou três semanas temos recebido livros extraordinários sobre mapas. Não é apenas cartografia geográfica (como se isso fosse pouco), mas também a arte de mapear aspectos não físicos. Como a mente. Ou culturais. Ou outros. A profusão e riqueza das abordagens, sempre acompanhadas de ilustrações magníficas, torna difícil a escolha de apenas um dos títulos disponíveis. E vêm mais a caminho!

Para os mais curiosos, fica aqui um exemplo:
The Art of The Map, de Dennis Reinhartz, com edição cuidada da Sterling.
Trata-se de uma história ilustrada do período áureo da cartografia (século XVI a XIX), que explora não só as figuras que embelezam os mapas, como o que elas significavam para quem as criou. Esta contextualização de monstros (reais ou imaginários), navios (verdadeiros ou meros arquétipos), flora recém descoberta (como o milho ou o tabaco), fauna variada (de búfalos a unicórnios), seres divinos e povos nativos. Imagens que ilustram todo um mundo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Irão, ontem e hoje




É já amanhã, dia 24 de Novembro, que inaugura a exposição de fotografia sobre o Irão. Às 17h, Siavash Laghai e Simon Davis vão falar-nos do país. São duas visões com 30 anos de intervalo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A estrada para Oxiana


Em breve partiremos do livro "The Road to Oxiana", de Robert Byron, para destacar o Irão.


Neste âmbito, no dia 24 de Novembro, às 17h, teremos um iraniano – Siavash Laghai – e um inglês – Simon Davis – a falarem-nos do Irão. Duas visões com 30 anos de intervalo, acompanhadas de uma exposição com fotografias suas.   Em 1933, o inglês Robert Byron partiu para uma viagem ao Médio Oriente via Beirute, Jerusalém, Bagdad e Teerão, até Oxiana – a região do Oxus, o antigo nome do rio Amudária que, na altura, fazia parte da fronteira entre o Afeganistão e a União Soviética.

Desta viagem, plena de aventuras por uma região repleta de tesouros arquitectónicos (que o autor considera mais extraordinários do que Versailles), Byron faz um relato entre o maravilhado e o divertido, deixando no leitor uma vontade imensa de lhe seguir as pegadas até à lendária torre de Qabus.

O livro figura numa lista dos 20 melhores livros de viagens (limitada a autores anglófonos e tão parcial como qualquer outra) e é por muitos considerado o "Ulisses" da literatura de viagens.   Urge uma edição em português, sobretudo agora que o género tem vindo a despertar de forma particular a atenção dos leitores.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Viajar com Steinbeck


Por causa de um cliente que nos veio visitar para partilhar connosco o ter realizado um sonho antigo - percorrer a Route 66 - fomos até à estante dos Estados Unidos da América e recordámos "Viagens com o Charley", que temos no original e na edição dos Livros do Brasil (esta, infelizmente, em vias de extinção).
Não sendo das obras mais conhecidas de John Steinbeck (em comparação com "As Vinhas da Ira" ou "A Pérola" - este último por vocação escolar, ou ainda o maravilhoso "Bairro da Lata" que o cinema ajudou a divulgar), este relato de uma viagem do autor pelo seu país, acompanhado do cão Charley, é um extraordinário conjunto de visões de apurado sentido crítico, por vezes politicamente bastante incorrectas e hilariantes, o que não é de mais elogiar nos dias que correm.
Por as palavras de Steibeck serem mais do que suficientes, fica um excerto, dos muitos possíveis:
"Devo confessar uma certa negligência a respeito dos parques nacionais. Não tenho visitado muitos. Talvez seja por encerrarem o único, o espectacular, o assombroso - a maior queda de água, o canhão mais profundo, o penhasco mais alto, as obras mais estupendas do Homem ou da Natureza. E prefiro ver uma boa fotografia de Brady do que o Monte Rushmore, pois é minha opinião que expomos e celebramos as singularidades do nosso país e da nossa civilização. O Parque Nacional de Yellowstone não é mais representativo da América do que a Diseyland.
Sendo esta a minha atitude natural, não sei o que me fez virar abruptamente para o Sul e atravessar a fronteira de um Estado para dar uma olhadela a Yellowstone. (...)
Um guarda de aspecto agradável do Parque Nacional fiscalizou a minha entrada e disse depois: - E quanto a esse cão? Não lhes é permitida a entrada a não ser à trela.
- Porquê? - perguntei eu.
- Por causa dos ursos. 
- Oiça - disse eu -, este é um cão único. Não vive à custa dos dentes nem dos colmilhos. Respeita o direito dos gatos a serem gatos, embora os não admire. Desvia-se de preferência a perturbar uma lagarta séria. O seu maior receio é que alguém lhe aponte um coelho e lhe sugira que o cace. Este é um cão de paz e de tranquilidade. Lembro que o maior perigo para os seus ursos será o melindre por serem ignorados pelo Charley.
(...) o Charley é um cobarde, tão profundamente cobarde que aperfeiçoou uma técnica para escondê-lo. E contudo mostrava todas as evidências de querer sair e matar um urso que o excedia de mil para um. (...)
Era demasiado demolidor dos nervos, um espectáculo chocante, como o de ver um velho amigo, calmo, tornar-se um louco. Nenhum conjunto de maravilhas naturais, de penhascos rígidos e de águas em catadupa, de fontes fumegantes, poderia sequer chamar a minha atenção enquanto aquele pandemónio continuava. Após mais ou menos o quinto encontro, desisiti, voltei o Rocinante e refiz o meu caminho."

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Seda", ilustrado por Rebecca Dautremer




Alessandro Baricco nasceu em Turim, em 1958. Desde o seu primeiro livro, "Castelos de Raiva" (publicado em Portugal pela Difel), Baricco tem dividido a crítica e os leitores.
Os seus romances têm sido comparados a peças de música (área artística a que Baricco não é de todo alheio, tendo inclusivamente estudado piano), aproximando a sua escrita de partituras dos mais variados géneros musicais, com progressões rítmicas, repetições e silêncios próprios.
"Seda" (editado pela D. Quixote), escrito em 1996, é uma música doce e lenta, de uma sensualidade silenciosa, com um ritmo ditado pelas quatro viagens ao Japão, todas iniciadas no princípio do mês de Outubro. A sua circularidade só acentua a lenta passagem do tempo.
Traduzido em mais de 25 línguas, "Seda", continua a ser o seu maior sucesso.

A ilustradora francesa Rebecca Dautremer nasceu em 1971. Em Portugal, há vários livros seus traduzidos. O seu universo, onírico e multicultural, adapta-se perfeitamente à história de Baricco. Aliás, o autor italiano já tinha sido auscultado para a adptação do seu romance e só agora, com a proposta de ser Dautremer a fazê-lo, é que aceitou o repto.
E o resultado é de tirar a respiração. A capacidade de Dautremer traduzir histórias e ambientes em desenhos já tinha sido amplamente demonstrada em "Cyrano" (também ela uma obra de influência oriental). Com "Soie" (ainda só em edição francesa), a elegância do texto está amplamente espelhada nas ilustrações.

Uma bela história, acompanhada de desenhos lindíssimos. Que mais se pode desejar? 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Escritores viajantes




Uns - como Pierre Loti, Joseph Conrad, Victor Segalen ou Nicolas Bouvier - partem para o fim do mundo para perseguir os seus sonhos, nascidos das suas leituras de infância; outros - Rudyard Kipling, Jack London, Joseph Kessel ou Bruce Chatwin - fazem-se ao caminho para encontrar temas para as suas obras. E há aqueles que, como Robert Louis Stevenson, não viajam para ir a algum sítio, viajam apenas pelo prazer da viagem.
Bouvier, por exemplo, a quem o Japão tanto acalmou, fez a pé os 140 km que separam Nagoya de Kyoto, fotografando camponeses e arrozais. "Levantar, partir, andar. Deus faz o resto."
Wilfred Thesiger, outro grande viajante, percorreu, ao longo de 45 anos, as últimas terras virgens da Arábia, de África e da Ásia, sempre acompanhado por guias locais.
Pierre Loti tinha um imenso fascínio pelo mar; Alexandra David-Néel - de quem se diz que tinha muito mau feitio - sentia uma enorme atracção pela Ásia e foi a primeira mulher ocidental a entrar em Lhassa; Victor Segalen chega à Ásia em 1909 e nem imaginava que este continente o iria absorver durante 5 anos. Histórias de vidas intensas.
Felizmente para nós, estes e outros viajantes colocaram no papel os relatos das suas viagens ou o resultado das suas reflexões.
Felizmente para nós, a editora francesa Arthaud publicou um livro belíssimo - "Écrivains Voyageurs, ces vagabondes qui disent le monde", de Laurent Maréchaux - onde se faz a devida resenha destas vidas. Contém fotografias, ilustrações, mapas e reproduções de capas de alguns dos livros que tornaram estes escritores famosos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Europa dos cafés



"(...) As grandes ideias humanistas. Isso é a cultura europeia. Fora isso que Mann aprendera com o seu mestre, Goethe. E o próprio Goethe, na sua autobiografia Dichtung und Wahrheit, indica como data de nascimento do seu humanismo europeu: 25 de Outubro de 1518. (...)"
Este pequeno excerto do livro "A Ideia de Europa", de George Steiner (edição da Gradiva) - que vem mesmo a propósito no dia de hoje, em que a Palavra de Viajante faz um ano - é apenas um aperitivo.
Nele, Steiner, reflecte sobre a importância dos cafés na formação da identidade europeia. E, ao longo do Danúbio, essa importância está bem patente, ou não passasse o rio por cidades como Viena, Budapeste e Belgrado, onde se podem encontrar dos mais belos cafés do continente. "(...) Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia de Europa.' (...)".

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O nosso Danúbio



Na próxima 5ª feira, dia 25, faz um ano que a Palavra de Viajante abriu ao público. Naturalmente, a nós custa-nos a acreditar.


Mas como é verdade, e como o projecto foi devidamente concebido numa viagem de carro ao longo do Danúbio, esse rio tão simbólico da Europa, vamos colocar em destaque os diversos países que ele atravessa. E, claro, o livro de Claudio Magris que nos inspirou.   Quando soube, Claudio Magris demonstrou carinhosamente por escrito a sua satisfação por ter influenciado algo que lhe é verdadeiramente precioso: uma livraria. Ainda hoje temos a sensação de não ter agradecido devidamente a essa grande senhora que tão simpaticamente nos veio mostrar a carta assinada pelo próprio Magris.   Magris nasceu em Triste em 1939 e tem reflectido de forma intensa sobre as questões de identidade e cultura da Europa, em particular daquilo a que chama a Mitteleuropa (a Europa cental). Em Danúbio, Magris leva-nos por uma viagem ao longo do rio e ao longo da história, da nascente na Floresta Negra ao delta, na Roménia. Uma obra fundamental, que obteve o Prémio Príncipe das Astúrias, em 2004.