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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Em busca de Malacovia


Dia 23 (III)
17 de Agosto de 2010
Como não vimos Lipovenos de barba, fomos à procura de Malacovia, uma cidade-fortaleza de ferro, construída em 1870 no Delta do Danúbio e concebida por um excêntrico príncipe Nogai (uma etnia turcomana do sudoeste da Rússia), escondida nos pântanos. O objectivo era aí criar uma pátria e capturar os navios russos no Mar Negro.
Educado em São Petersburgo, o príncipe inspirou-se numa invenção que dava os primeiros passos: a bicicleta. Malacovia era uma espécie de ovo de ferro eriçado de canhões que podia descer, em caso de emergência, para uma plataforma situada sob os pântanos do Delta, graças a um gigantesco sistema de rodas dentadas ligadas a uma série de bicicletas nas quais pedalavam 50 tártaros Nogai.

Devido à extrema humidade do Delta, o mecanismo das rodas dentadas emperrou e, num dia do ano de 1873, o ovo não conseguiu descer para o seu ninho, apesar dos imensos esforços dos 50 ciclistas Nogai. Conscientes da proximidade do fim, o príncipe e os seus correlegionários fogem, com as bicicletas sobre a cabeça, por um túnel secreto, e dispersam-se pelo mundo. Nos anos 1900 era comum observar-se, em Paris ou em Londres, um tártaro (com a cabeça baixa sobre o guiador) percorrendo as avenidas a uma velocidade estonteante.

Esta bela história de Amedeo Tosetti, denominada Pedali sul Mar Nero, encontra-se compilada no Dictionnaire des Lieux Imaginaires, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. A ideia de Malacovia foi retomada recentemente por um estudante malaio, que cresceu na Alemanha e se mudou para Londres, numa tese de design: http://www.pascalbronner.com/

Nas imagens, a 1ª é de Bronner e a 2ª de Tosetti. E, como é óbvio, não apanhámos assim tanto sol na cabeça no Delta que fossemos à procura de Malacovia. É apenas uma boa história, sobretudo agora que temos de pensar em regressar e, acedendo aos insistentes pedidos dos nossos seguidores, continuar este blog.

Pescadores russos do Delta


Dia 23 (II)
17 de Agosto de 2010

Em Mila 23 (uma terra na milha 23, a contar de Sulina, no Mar Negro) vivem Lipovenos, descendentes de cossacos do Don, que aqui chegaram no séc. XVIII, fugindo do Czar e de ferozes perseguições. A razão fora um cisma na igreja russa e novos costumes (como cortar a barba ou vestir à ocidental), agravados por Pedro, o Grande, que os "antigos crentes" se recusaram a adoptar, chegando a perpetrar imolações colectivas.

Os homens usam grandes barbas e a igreja no centro da aldeia é tipicamente russa. O primeiro facto não o pudemos constatar, pois todos os homens que vimos em Mila 23 exibiam bochechas luzidias e sem pilosidades.

Nos braços do Delta


Dia 23 (I)
17 de Agosto de 2010

A madrugada (despertar às 06h30!!!!!) parecia ameaçar o passeio pois havia nevoeiro. Acabou por ser uma sorte, pois pudemos observar o dia a abrir já no Delta do Danúbio, a bordo de uma lancha (que sempre era) rápida, conduzida por um romeno que só falava romeno. Fomos por um emaranhado de braços mesmo até à beirinha de um lago em que não se pode entrar por ser um santuário para os pelicanos. Novo emaranhado de canais até outro lago, rodeadas de árvores meio submersas, num passeio fantástico (ser tão cedo aliviou o calor), em que vimos muitas aves, pescadores e campismo selvagem nas margens, e que durou cerca de 3h30, com uma paragem na mítica Mila 23. Uma manhã inesquecível.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

3 semanas e 6000 km depois...

Dia 22 (III)
16 de Agosto de 2010

Chegámos!


Cerca de 6000 km depois, estamos em Tulcea, a menos de 40 km do Mar Negro. À nossa frente, o Delta do Danúbio, reserva da biosfera, Património da Humanidade, habitat de íbis-preto, pelicanos-brancos e pelicanos frisados, entre as cerca de 3450 espécies animais. Já para não falar das 1700 espécies vegetais.

Amanhã, vamos dar uma volta pelo Delta, a bordo de uma lancha rápida (esperamos!). O calor é sufocante, pelo que marcámos o passeio para as 07h30. Agora vamos à procura da bicheza do Danúbio, mas no prato, em formato de sopa de peixe.

Ciganos que lêem o Corão


Dia 22 (II)
16 de Agosto de 2010

Quase a chegar a Tulcea, pela DN22, há uma terra que se chama Babadag. Aí, encontra-se a mais antiga mesquita do país (1522) e uma comunidade de ciganos... muçulmanos. É um lugar santo para os muçulmanos romenos pois nele está enterrado Saru Saltuk, um turco que aqui se instalou com os seus 12 mil homens, a pedido do imperador bizantino, em 1262.

Estes ciganos, denominados horahane (os que lêem o Corão), vivem num bairro à saída de Babadag e as mulheres vestem vestimentas coloridas (consta, porque as que vimos tinham roupas normais!).

Só para a Roménia eram mais duas semanas

Dia 22 (I)
16 de Agosto de 2010

A Roménia vai obrigar a um regresso com mais tempo. Nas excelentes (e várias) livrarias de Bucareste pudemos ver alguns livros sobre o país e tudo nos pareceu muito apetecível. Por falar em livros e em Roménia, não podemos deixar de referir a Prémio Nobel da Literatura de 2009, Herta Müller, um bom exemplo da miscelânea cultural desta zona da Europa. Nascida na aldeia de Nitzkydorf, perto de Timisoara, no seio de uma família germano-romena, ela "fala da aldeia, mas a sua aldeia é o lugar da ausência, onde as coisas (...) narram a opressiva estranheza do mundo e também do indivíduo de si para si", segundo Claudio Magris.


Não é uma leitura fácil, por vezes é até incómoda - a estranheza de que fala Magris - mas os livros estão soberbamente escritos e tocam fundo.

Ou seja, ainda ficou muito por ver mas, são horas de partir para o Delta (a facilidade com que uma pessoa se distrai dos seus objectivos...).

sábado, 31 de julho de 2010

Do Estuário do Sado ao Delta do Danúbio


Temos 6 semanas para percorrer o Danúbio, começando em Setúbal. Esta é a viagem a que nos propomos, a bordo de um fiel Opel Corsa.
Ana Coelho e Dulce Gomes